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Jodorowsky, Alexandro

Jodorowsky, Alexandro

 
 
AUTOR                                                                                                                                                                                       

JODOROWSKY, ALEXANDRO

  • 1303000001
  • Jodorowsky, Alexandro
  • 17-02-1929
  • Tocopilla
  • Chile
 
 
BIOGRAFIA                                                                                                  
 

Alexandro Jodorowsky: O Visionário Total

Alexandro Jodorowsky Prullansky nasceu a 17 de fevereiro de 1929, em Tocopilla, no Chile, filho de emigrantes judeus ucranianos. Desde cedo, a sua vida foi marcada por deslocações, rupturas e reinvenções — elementos que mais tarde se tornariam a espinha dorsal da sua obra. Poeta, romancista, dramaturgo, cineasta, ator, filósofo, tarólogo, performer, guionista de banda desenhada e terapeuta simbólico, Jodorowsky é um dos raros artistas cuja vida parece tão ficcional quanto as histórias que cria.A sua trajetória é a de um criador total, um “artista multifacetas”, como ele próprio afirma, evocando figuras como Cocteau, Pasolini ou Leonardo da Vinci. A sua obra atravessa géneros, fronteiras e disciplinas, sempre com a mesma ambição: transformar a consciência humana através da arte.

Infância, fuga e formação espiritual

Cresceu num ambiente familiar rígido, marcado por conflitos com o pai — figura que mais tarde exploraria em obras autobiográficas como La Danza de la Realidad. Aos 23 anos, deixou o Chile rumo a Paris, onde mergulhou no teatro experimental, estudou mimo com Marcel Marceau e se aproximou dos movimentos surrealistas. Nos anos 60, viveu no México, onde fundou o movimento Pânico com Fernando Arrabal e Roland Topor — uma corrente artística que celebrava o caos, o humor negro e a libertação emocional.Foi também no México que começou a praticar tarot, disciplina que se tornaria central na sua vida e obra. Décadas mais tarde, restauraria o Tarot de Marselha com Philippe Camoin e criaria a sua própria abordagem terapêutica: a psicomagia.

O cinema: escândalo, culto e revolução

Nos anos 70, Jodorowsky realizou alguns dos filmes mais ousados e influentes da história do cinema:
  • El Topo (1970) — um western metafísico que se tornou o primeiro “midnight movie” da história.
  • La Montaña Sagrada (1973) — uma viagem alquímica e visualmente arrebatadora, produzida por Allen Klein e apoiada por John Lennon.
  • Santa Sangre (1989) — um mergulho surreal na memória, no trauma e na identidade.
Mas o seu projeto mais lendário foi aquele que nunca chegou a filmar: Dune, uma adaptação monumental do romance de Frank Herbert, que reuniria Moebius, Giger, Pink Floyd, Salvador Dalí e Orson Welles. O fracasso financeiro do projeto tornou-se mito — e influenciou profundamente Star Wars, Alien e grande parte da ficção científica moderna.

A BD europeia: o arquiteto de universos

Se o cinema lhe deu notoriedade, foi na banda desenhada que Jodorowsky encontrou o seu território mais fértil. A partir dos anos 80, tornou-se um dos pilares da editora Les Humanoïdes Associés, criando universos vastos, filosóficos e profundamente simbólicos.

O Incal (com Moebius)

A sua obra-prima. Uma epopeia metafísica que segue John Difool, o “mat”, o louco do tarot, numa jornada de iluminação. As páginas que me enviaste sublinham essa ligação: Difool é o arquétipo do inocente, do errante, do espírito livre.

A Casta dos Metabarões (com Juan Giménez)

Uma saga trágica sobre linhagens, destino e sacrifício. Cada volume é estruturado como um capítulo de uma epopeia clássica, com temas de poder, mutilação, honra e transcendência. As páginas mostram como Jodorowsky descrevia cada vinheta com precisão quase cirúrgica — “cada caso faz l’objet d’une description détaillée”.

O Lama Branco (com Georges Bess)

Uma história espiritual tibetana, onde o protagonista Gabriel encarna a carta da Temperança — equilíbrio, purificação, renascimento.

Alef-Thau (com Arno)

Um herói mutilado que se regenera a cada aventura, metáfora da evolução interior. As páginas que partilhaste associam-no à Roda da Fortuna, símbolo de mudança e destino.

Juan Solo (com Bess)

Um anti-herói violento e luminoso, ligado à carta do Ás de Espadas — ação, energia, justiça.Jodorowsky não escrevia BD: escrevia romances gráficos, como ele próprio diz. Cada capítulo terminava num “imenso ponto de interrogação”, uma porta aberta para a reflexão metafísica.

Tarot, psicomagia e terapias poéticas

Jodorowsky tornou-se também conhecido como tarólogo. Durante décadas, ofereceu leituras gratuitas de tarot às quartas-feiras em Paris. Ministros, artistas, cineastas — de Sergio Leone a Vittorio Gassman — procuraram-no para orientação emocional.A sua abordagem terapêutica, a psicomagia, combina tarot, teatro, poesia e rituais simbólicos para desbloquear traumas. É controversa, mas profundamente influente no campo da arte-terapia.

Temas centrais da sua obra

A partir das páginas que me enviaste e da sua bibliografia, emergem temas recorrentes:
  • O herói mutilado que se reconstrói (Alef-Thau, Metabarões).
  • A dor como caminho de transformação — “Pour être ce que l’on est, il faut en passer par la douleur.”
  • O sonho como alimento espiritual — “Si on ne rêve pas, on meurt.”
  • A busca da iluminação — presente em O Incal, O Lama Branco, Psicomagia.
  • A crítica à perfeição — “La perfection est aliénante… je préfère l’excellence.”
  • A fusão entre mito, psicologia e ficção científica.
  • A criação de mitos modernos, como ele próprio afirma.

A vida como obra de arte

Jodorowsky viveu sempre como se estivesse a escrever a sua própria mitologia. Encontrou Beckett, Dali, Brecht, Lennon, Dylan, Hopper, Fonda — e transformou cada encontro em matéria simbólica. A sua vida é uma coleção de histórias improváveis, mas profundamente coerentes com a sua visão artística.

Legado

Hoje, Jodorowsky é reconhecido como:
  • um dos maiores criadores da BD europeia,
  • um cineasta de culto,
  • um poeta do inconsciente,
  • um filósofo da imaginação,
  • um mestre do tarot,
  • e um dos artistas mais influentes do século XX e XXI.
A sua obra continua a inspirar cineastas, escritores, músicos, psicólogos e artistas visuais. E, acima de tudo, continua a lembrar-nos que a arte não é apenas entretenimento — é transformação.

 

 
 
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